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Agradecimentos
Introdução

Capítulo 1

   • A Banda dos Chorões: de Anacleto a Carramona

   • Albertino Pimentel, o Carramona

   • As bandas nas suas primeiras décadas

Capítulo 2: A Banda no Tempo de Pinto Jr.

Capítulo 3: A Banda de Benvenuto
Conclusão
Bibliografia
Entrevistas
Depoimentos

Agradecimentos

A Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro é uma das principais, senão a mais importante banda da história musical do país. Fundada por Anacleto de Medeiros em 1896, continua até hoje enchendo de orgulho seus admiradores e os músicos que dela fizeram ou ainda fazem parte.

Este ensaio sobre sua vistosa e vitoriosa trajetória não poderia ser realizado sem o patrocínio cultural da Petrobrás e sua parceria com a Arte_Fato Produto Cultural, a quem agradecemos pela oportunidade da pesquisa.

Agradecemos também aos 143 músicos atuais da Banda, que nos acolheram e se dispuseram a colaborar com a pesquisa desde o início. Nosso muito obrigado ao diretor do Centro Histórico e Cultural do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, Cel. Luiz Fernando da Silva, ao maestro titular Tnte. Efrahim Magalhães Berto, ao 2º Sgt. Mizael de Jesus Lobato e ao 1º Sgt. Gilson da Silva Moura.

Não poderíamos esquecer de agradecer aos nossos depoentes, que cederam seu tempo e suas memórias ao projeto: Antônio Candido Sobrinho, Carlos Gomes, Gilson da Silva Moura, José Cândido da Costa, Marcos Campos, Silvino Lemos, José Antônio de Souza e Othônio Benvenuto. E a todos aqueles que direta ou indiretamente colaboraram no preenchimento de mais uma lacuna na história musical carioca.

 

IntroduÇÃo

Texto: André Diniz / Evelyn Chaves

Conservatório do povo, depositária de tradições, museu vivo de nosso passado musical. Assim podemos começar a falar em banda de música, tema que, embora de tanta importância, tem sido pouco explorado por pesquisadores de nossa música popular, talvez pelo seu caráter polimorfo.

Mas o que é uma banda? Como e quando surgiram as primeiras?

A rigor, banda de música é um conjunto constituído de instrumentos de sopro (madeira e metal) e percussão. No que diz respeito à etimologia, banda, bando e bandeira têm a mesma origem: provêm da raiz germânica bandwa, que significa bandeira ou estandarte. Do italiano, banda passou ao francês e mais tarde a outras línguas latinas, também dando origem ao inglês band.

Foi apenas no século XIX que as bandas adquiriram o caráter que têm até hoje, inclusive na Europa. Um dos principais responsáveis por essa atualização foi o criador do saxofone, o francês de origem belga Adolfo Sax.

Antes disso, as bandas de música mais antigas, compostas por instrumentos de sopro e percussão, eram chamadas também de charamelas. Calamus ou charamela são nomes latinos dados à flauta rústica, instrumento muito utilizado até o final do século XVIII, que se dividia em três tipos: a bastarda, a média e a pequena.

Segundo Vicente Salles, é muito provável que o termo charamela tenha dado origem à palavra charanga, nome muitas vezes pejorativo, que serve para designar as bandas de música de cidades do interior ou ainda qualquer banda de música desafinada.

No Brasil, as bandas de música, tal e qual as conhecemos atualmente, são fruto do século XIX. Quando D. João deixou Portugal, em 1807, trouxe consigo a Banda da Brigada Real, que, segundo Vicente Salles, “embora modelada à maneira antiga não deixava de constituir grande exemplo para as organizações similares no Brasil”. [1]

Mas nosso país tinha seus grupos musicais desde a época colonial. Os conjuntos de pífanos, ou ternos, datam dessa época. O terno, também chamado de terço, costumava reunir três naipes: a flauta, o cavaquinho e o violão. Interessante notar que essa formação se estendeu à época do choro e das serenatas, mais recentemente.

Foi com o decreto de D. João, em 27 de março de 1810, que as bandas ganharam novo fôlego no país, e começaram a se disseminar. Pelo decreto, todos os regimentos militares ficavam obrigados a ter uma banda de música, com composição variando de 12 a 16 executantes. A partir de 1814, tem início a difusão do ensino e da prática de instrumentos mais atualizados.

Dentre as inúmeras bandas surgidas no Rio de Janeiro do século XIX, podemos destacar: Bella Harmonia, Prazer Nova Aurora, Recreio dos Artistas, Club Estácio de Sá, Estrela do Norte, Recreio de São Cristóvão, Progresso do Engenho de Dentro e Congresso Flor de São João.

Atualmente, as bandas podem ser de dois tipos: civis ou militares. Entre as civis, existem as bandas marciais, em geral pertencentes a colégios, e as fanfarras. Uma fanfarra é constituída quase que pelos mesmos instrumentos que compõem uma banda de música. A diferença reside na exclusão, na fanfarra, de todos os instrumentos de palheta, exceto os saxofones. Em alguns casos, quando são introduzidos instrumentos de cordas, como por exemplo o violoncelo e o contrabaixo, a banda de música é ainda filarmônica.

Verdadeiras escolas da arte, as bandas de música vêm contribuindo de forma inestimável para a preservação da cultura nacional, seja descobrindo novos talentos ou incentivando o interesse pela música. Muitos grandes vultos da música universal tiveram como rito de passagem a banda de música. Como forma de ilustração, podemos citar Verdi, que foi mestre de banda de música na Itália. [2] No Brasil, vale registrar que um dos nossos maiores compositores populares, Luiz Gonzaga, começou sua vida musical como corneteiro do exército, dele dando baixa em 1939.[3]

Intimamente ligadas à história da nossa música popular, as bandas contribuíram para o abrasileiramento de muitas danças européias que aqui chegaram no século XIX, como a polca, a valsa, a mazurca e a quadrilha.

Além disso, como nos lembra Ricardo Tacuchian, vários gêneros musicais, como o choro, se bandizaram e graças a esse fenômeno se conservam até hoje.[4]

Entretanto, com o advento da música pop, do rock e dos instrumentos eletrônicos, as músicas de banda perderam espaço no mercado. Ricardo Tacuchian, em pesquisa realizada em 1982, registra que, no Rio de Janeiro, das 103 bandas civis catalogadas no Departamento de Cultura do Estado até aquela data, apenas 30 estavam em atividade, muitas vezes de maneira precária e irregular.

Não elitizável por sua própria natureza, se assentando no contexto popular, fonte de lazer e centro formador de músicos, as bandas fazem parte de nossa história, de nossa cultura e, em última instância, de nossa identidade. 

Este ensaio tem como objetivo resgatar e sobretudo reafirmar a importância das nossas bandas de música, mais especificamente a Banda do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Janeiro, fundada em 1896.

No primeiro capítulo, apresentamos os anos iniciais da Banda, que teve como fundador ninguém menos que Anacleto de Medeiros, maestro seguido por Albertino Pimentel, o Carramona. Era a época da Banda dos chorões.

Em seguida, a Banda no tempo de Pinto Júnior, maestro que esteve à frente da mesma por muitos anos; grande compositor, transcritor e arranjador.

O que Pinto Jr. fez com a Banda, em termos de afirmação no cenário musical da época, só seria revivido com Othônio Benvenuto, personagem central do terceiro e último capítulo, que acompanha a trajetória da Banda até os anos 70.

 

Capítulo 1

A Banda dos Chorões: de Anacleto a Carramona

"Anacleto de Medeiros

Ingratamente olvidado

Que nunca apagaste incêndios

Mas com teu fogo sagrado

Acendias harmonias

Regendo a banda gloriosa

Dos invencíveis bombeiros..."

(Catulo da Paixão Cearense, poeta, letrista e seresteiro).

Não é de hoje que o Rio de Janeiro é apontado como espaço musical definidor de gostos pelo país. Capital da Colônia, do Império e da República – até a inauguração de Brasília –, a cidade, lírica em sua conjunção de florestas, mares e montanhas, foi palco da sistematização da modinha, com o poeta Caldas Barbosa, do surgimento do "choro", com o flautista Joaquim Callado, do surgimento do samba, com Sinhô, Donga, Ismael, da primeira fonográfica brasileira, a Casa Edison, das principais emissoras de rádio, como a Mayrink Veiga e a Rádio Nacional, da Bossa Nova, com João, Vinícius e Tom, enfim, dos mais relevantes gêneros musicais brasileiros que em solos cariocas nasceram ou encontraram o melhor caminho para sua divulgação.

Era então de se esperar que uma cidade que começava a traçar os seus perfis culturais abrigasse, ao final do século XIX – mais precisamente em 1896 –, o surgimento da mais importante banda de música da antiga capital da República: a do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro.

Um ofício do Ministro da Justiça Dr. Alberto Torres, no Governo Presidencial de Prudente de Moraes, autorizava, em resposta ao pedido do Ten. Cel. Eugênio Rodrigues Jardim, comandante interino do Corpo de Bombeiros, a criação da primeira banda da corporação. A Banda estreou na inauguração do Posto de Bombeiros de Humaitá, em 15 de novembro de 1896, com vinte e cinco músicos, regida pelo Sargento Azevedo, auxiliar daquele que seria o principal organizador do grupo, o maestro Anacleto de Medeiros.

Anacleto Augusto de Medeiros pode e deve ser considerado o maestro das bandas do Rio de Janeiro, visto que ficou à frente de inúmeras delas. Estudou música no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro e depois aperfeiçoou seus conhecimentos no Conservatório de Música – posteriormente chamado de Escola Nacional de Música –, tendo como companheiro de classe o maestro Francisco Braga.

As aulas no Arsenal eram ministradas pelo chorão Santos Bocot, autor da valsa Teresinha, que incutiu na formação musical do menino Anacleto a adoração pelo que conheceríamos nos anos de 1920 como choro. No Conservatório de Música, Henrique Alves de Mesquita foi professor de Anacleto, contribuindo em muito para edificar no jovem aluno a adoração pela música. 

A bem da verdade, a linha musical que o professor Santos Bocot imprimiu na formação de Anacleto é uma das principais matrizes de nossa música popular. O choro, ou chorinho, surgiu ao final do século XIX na cidade do Rio de Janeiro, com as composições e interpretações de Joaquim Callado, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaré e do próprio Anacleto, que utilizavam seus instrumentos para dar um sabor “carioca” às polcas, valsas, xótis e mazurcas européias. O gênero era uma fusão dos ritmos africanos e europeus.

Nos primeiros anos do século XX, Pixinguinha, considerado o maior nome do choro, consolidou o ritmo que depois teria como um de seus pilares o compositor Jacob do Bandolim. O choro transformou-se em celeiro privilegiado de excepcionais instrumentistas e compositores.  

Assim, não era de se estranhar que o chorão, maestro e multiinstrumentista Anacleto de Medeiros – que na realidade gostava mais de tocar sax-soprano – levasse para o repertório da Banda as composições em voga no choro. 

Ele também profissionalizou músicos que tocavam dispersos em diferentes grupos da cidade. Irineu de Almeida, ou Irineu Batina, primeiro professor do genial Pixinguinha, integrou a Banda tocando oficleide ao lado dos músicos Luís de Souza (cornetim e trompete) Candinho do Trombone, Casemiro Rocha (pistonista e compositor), Liça (bombardão), Irineu Pianinho (flauta), Edmundo Otávio Ferreira (requinta) e João Ferreira de Almeida (bombardino), entre tantos outros chorões.

Com tino musical apurado, Anacleto de Medeiros fez com que a Banda do Corpo de Bombeiros se destacasse das demais pela afinação e pelos arranjos mais sofisticados. Basta ouvir as gravações da Casa Edison (primeira fonográfica brasileira criada em 1902 pelo tcheco Frederico Figner) das músicas A Turuna e Jandira, de Felisberto Marques, Avenida, Cabeça de Porco, Despedida e Iara, do próprio Anacleto, e Brejeiro, de Ernesto Nazaré, para comprovar a qualidade musical da Banda.

Criador do xótis brasileiro, o maestro passou a ser conhecido e admirado na cidade do Rio de Janeiro. O poeta popular Catulo da Paixão Cearense, autor com João Pernambuco de Luar do Sertão, letrou inúmeras de suas melodias, grande parte delas após a morte do maestro, com destaque para Yara, conhecida posteriormente como Rasga Coração. Villa-Lobos utilizou esta melodia no seu Choros 10.

Maior músico das Américas no XIX, o brasileiro Carlos Gomes não cansava de elogiar Anacleto. Assim o jornal Gazeta de Notícia, do dia 13 de julho de 1906, relatou: "O saudoso Carlos Gomes quando esteve hospedado na ilha de Paquetá era incansável em elogiar o talento musical de 'seu caboclo' [Anacleto de Medeiros], como tratava o grande maestro..."

Anacleto de Medeiros deixou quase uma centena de composições conhecidas, entre polcas, valsas, xótis, tangos, dobrados, mazurcas e marchas, perfazendo o rico caminho da musicalidade carioca. Suas melodias eram executadas por bandas de todo o Brasil, reafirmando a importância das corporações musicais na divulgação do nosso repertório popular. Para citar apenas algumas pérolas do mestiço fiquemos com o dobrado Jubileu, o tango Boêmios, os xótis Benzinho e Olhos matadores e as polcas Três estrelas e Quiproquó

 Infelizmente, a pesquisa que realizamos não encontrou nenhuma peça original sua nos arquivos da Banda. Segundo Antonio Augusto, musicólogo da pesquisa, “em carta endereçada ao escritor e musicólogo Baptista Siqueira, datada de 7 de novembro de 1967, o Capitão Benvenuto, então mestre da Banda do Corpo de Bombeiros, relaciona as obras do compositor que constavam no Acervo da Banda. Entre elas figuram a fantasia 28 de Fevereiro, e a quadrilha No Baile, que não foram encontradas”.

Entretanto, a pesquisa localizou três obras ainda não relacionadas na bibliografia musical do maestro: Os Mártires de Canudos, São Sebastião e Noite de Luar.  

Também foram encontrados uma marcha do professor de Pixinguinha, Irineu de Almeida, intitulada Arthur Azevedo, um arranjo feito por Anacleto da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, e um arranjo da marcha Triumphal, de Assis Pacheco. Mas nenhuma partitura. Esse resultado decorre principalmente dos seguintes fatores: a) o maestro coordenava muitas bandas na cidade – Banda de Magé, da Fábrica de Chitas Bangu, da Fábrica de Tecidos Macacos e da Sociedade Recreio Musical Paquetaense, entre outras – portanto, possivelmente ele levava a partitura de um lado para outro, desfalcando o acervo da corporação; b) com a transferência de parte dos músicos da Banda em 1963 para a nova capital da República, Brasília, é possível que muitas partituras tenham sido jogadas fora ou mesmo extraviadas; c) o manuseio e extravio de partituras por parte de indivíduos que se achavam no direito de tê-las em seu poder. Para a memória da Banda e da música popular carioca, há um elo perdido que talvez não recuperemos mais.

Anacleto de Medeiros morreu no dia 14 de agosto de 1907, aos 41 anos, e foi enterrado em sua Paquetá, no Rio de Janeiro. Ficou à frente da Banda do Corpo de Bombeiros por 11 anos, quando foi substituído interinamente pelo compositor e professor de oboé, maestro Agostinho Luiz de Gouvêa, e logo em seguida pelo chorão, maestro e pistonista Albertino Pimentel Ignácio Carramona, o primeiro regente efetivamente militar da Banda. 

 

Albertino Pimentel, o Carramona

No começo do século XX, o choro era um estilo musical presente na sociedade carioca. Os chorões tocavam nas festas de aniversário, nos batizados, nos casamentos, no teatro de revista – acompanhando os cantores –, nos arrasta-pés, nas bandas e nas casas musicais, fosse para vender partituras ou para uma boa roda de choro, regada a improvisação, desafios e muito balanço – traços marcantes do gênero.

Na secular Loja Cavaquinho de Ouro, existente até hoje, os chorões faziam sua morada. Uma passada por lá podia render um encontro com a conhecida Turma do Cavaquinho de Ouro, Anacleto, Juca Kalut, Quincas Laranjeiras (renomado professor de violão da Capital), o mestre Villa-Lobos (que deu ao gênero um viés acadêmico) e com Albertino Inácio Pimentel Carramona. Este maestro, que substituiu o falecido Anacleto de Medeiros, continuou a obra do fundador da Banda após 1910: manteve-a formada por instrumentistas de choro e executando composições ao estilo do maestro anterior.

Carramona era pistonista, regente e compositor. Sua formação musical era resultado do aprendizado na Casa dos Meninos Desvalidos e na própria Banda do Corpo de Bombeiros, cujo comando assumiu dez anos depois de seu ingresso em 1900. Vale também destacar o aprendizado que teve nas inúmeras rodas de choro da cidade, visto que esta é a tradicional escola de músicos melodiosos e harmônicos.

A vivência musical na cidade fez de Carramona um apaixonado pelo Rancho Ameno Resedá, o mais conhecido rancho da História, para o qual compôs uma polca de mesmo nome. Os ranchos eram agrupamentos carnavalescos, descendentes do pastoril, que incluíam instrumentos de corda e de sopro, porta-estandarte, coro para entoar a marcha-rancho, mestre-sala etc. O bom entendedor já pôde perceber que os ranchos foram os precursores da escolas de samba.

Consciente de sua importante tarefa à frente da Banda após a morte de Anacleto de Medeiros, Carramona manteve a excelência dos músicos da corporação e a tradição de compor polcas, choros, mazurcas, valsas e outros gêneros populares. Compôs também um dobrado em homenagem ao mestre, intitulado Memórias de Anacleto. Várias outras criações suas ficaram no repertório popular: Albertina, Fantasia do Luar, Hiranda, Recordações de Lili, Recordações de Paquetá, Coralina...

Alexandre Gonçalves Pinto, chorão das primeiras décadas do século XX, diz, em seu livro de memórias, que Albertino Inácio Pimentel Carramona “(...) tornou-se um exímio professor, compositor e continuador do seu inesquecível mestre (Anacleto), tendo-lhe substituído no nível de igualdade...”[5]

Nas pesquisas para este trabalho descobrimos que a “memória” foi um pouquinho mais generosa com as composições de Albertino que ficaram na Banda, em comparação com Anacleto. Dentre as composições e arranjos que encontramos, podemos destacar Nossa Pátria, Dr. Marques Porto, Zaranga e Dr. Souza e Silva.

Carramona morreu no ano de 1929, aos 55 anos de idade. A Banda já estava há três anos sob o comando do 2º Tenente maestro Antonio Pinto Júnior.

 

As bandas nas suas primeiras décadas

“Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor.”

(A Banda, Chico Buarque)

As bandas tiveram um papel importantíssimo no universo da cultura musical brasileira. No caso específico do Rio de Janeiro, as corporações musicais atuaram no campo do lazer, da profissionalização e da divulgação.

No início do século XIX, em um Rio que ainda parecia colonial, sem estruturas diversificadas de lazer, as apresentações das bandas da cidade significavam momentos raros de audição pública do repertório popular e erudito. Sem rádio ou televisão, contando apenas com os grupos de choro espalhados pela cidade e as apresentações do teatro musicado da Praça Tiradentes, a população ficava aguardando as democráticas exibições dos “soldados de fogo”.

A Banda do Corpo de Bombeiros apresentava-se em festas cívicas, religiosas e concertos, tocando um repertório abrangente que englobava trechos de ópera, adaptados para esta formação, marchas, dobrados, polcas, valsas, mazurcas e xótis. Havia uma forte influência musical européia que aos poucos seria substituída pela americana.

Grande parte do repertório popular vinha de compositores da própria Banda ou de nomes reconhecidos na cidade como: Chiquinha Gonzaga, Henrique Alves de Mesquita (professor de uma geração de músicos renomados da cidade) e Francisco Braga (autor do hino da bandeira).  

Pioneira em matéria de divulgação, a Banda do Corpo de Bombeiros foi o primeiro grupo instrumental no Brasil a gravar um disco de 78rpm, na Casa Edison, em 1902. Para além da qualidade imposta por Anacleto de Medeiros, a boa afinação e os arranjos bem elaborados, as bandas tinham mais facilidade de gravar porque a potência do seu som era registrada com mais facilidade e precisão no sumo da cera – a gravação era mecânica e só em 1927 surgiria a gravação elétrica.

Uma vez que a Banda tinha grande relevância nas suas apresentações e gravações musicais, ela representava muitas vezes o único refúgio para a profissionalização do músico. Como vida de músico não era muito fácil e a profissionalização da classe estava apenas engatinhando na cidade, as bandas eram os espaços que possibilitavam a sobrevivência com dignidade desses artistas. Não fosse a proliferação de bandas militares e civis no Rio de Janeiro, grande parte desses profissionais de fato não poderia viver de música.

 Além da sobrevivência, a banda era quase uma escola pública do ensino musical. Desde a Colônia, o ensino da música estava mais ligado à Igreja ou aos senhores que fomentavam em seus escravos o cultivo musical. Há inúmeros exemplos de fazendas que tinham uma banda e muitas ficaram conhecidas, já na área urbana e com um estilo de música mais popular e espontâneo, como banda de barbeiros – grupos que saíam pela cidade tocando, sobretudo em festas religiosas.

A deficiência de escolas musicais também era suprida por instituições como o Asilo dos Meninos Desvalidos, internato destinado a recolher e educar meninos de 6 a 12 anos. Os meninos asilados tinham aula de música e a banda da instituição era considerada uma das melhores da Capital. Pelo Asilo passaram Francisco Braga, Candinho do Trombone, Albertino Pimentel e Paulino Sacramento, entre tantos outros meninos-músicos.  

Outra escola que formou grande parte da geração de Anacleto de Medeiros e Albertino Pimentel foi o Conservatório de Música. Não raro, alunos de outras instituições iam concluir seu aprendizado no Conservatório, um dos poucos estabelecimentos de música mantidos pelo governo. Este foi o caso, por exemplo, de Francisco Braga.

O Conservatório de Música funcionou inicialmente no Museu Nacional, na Praça da República, passando posteriormente, em 1855, a ocupar um espaço dentro da Academia de Belas Artes; finalmente, em 1872, ganhou sede própria na Rua Lampadosa, atual Luís de Camões, no Centro do Rio de Janeiro. Hoje, com o nome de Escola de Música, pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro, tendo sua sede no boêmio bairro da Lapa... Nele se formaram Joaquim Callado, Patápio Silva e Anacleto de Medeiros, por exemplo, sob a batuta de Henrique Alves de Mesquita.

A “banda” foi a professora e a guardiã financeira de milhares de jovens músicos, deixando qualquer outra instituição no chinelo, como se diz.

 

Capítulo 2

A Banda no Tempo de Pinto Jr.

Os anos 20 marcaram de forma acintosa a vida cultural no Rio de Janeiro e no mundo. O cinema de Hollywood, o jazz, as danças da moda como o tango, o fox-trot, o charleston, as orquestras e o rádio eram parte fundamental da vida de milhões de consumidores.

A sociedade carioca ganhou corpo em suas camadas médias, o que acabou por gerar diversos espaços de lazer musical: os cines, os chopp-cantantes e o cada vez mais concorrido e elaborado teatro de revista. No âmbito fonográfico, o surgimento da gravação elétrica resultou no melhor registro da voz. Cantores como Francisco Alves, Mário Reis e Orlando Silva passaram a fazer parte do cotidiano de milhares de fãs. Foi ainda um tempo em que os chorões tocavam em jazz bands e entravam na Era do Rádio conhecidos como Regionais.

É no contexto dos Anos Loucos, como ficou conhecida a década de 1920 pelo mundo, que assume o comando da Banda do Corpo de Bombeiros o maestro Antonio Pinto Junior. Em 1923 assumiu como contra-mestre, sendo efetivado como maestro em 1926. Pinto Jr. ficou à frente da Banda por mais de 18 anos, ao todo, encerrando sua carreira em 1944, às vésperas do fim da Segunda Grande Guerra Mundial.

Por mais que não tivesse tanta notoriedade na imprensa como Anacleto e Carramona, o maestro Antonio Pinto Junior desempenhou um trabalho importantíssimo na reestruturação da Banda, na sua divulgação pela cidade e, de certa forma, até pelo país. 

Através de concurso, a Banda aumentou seu efetivo para 60 músicos. O perfil continuava sendo o daqueles que buscavam acolhida material no quartel dos bombeiros. Com o crescimento do efetivo, aumentou também o naipe de instrumentos da corporação. Instrumentos antes nunca usados, como o saxofone baixo, passaram a fazer parte das orquestrações.

O próprio Pinto Jr. começou a escrever inúmeros arranjos. Um caso notório foi o da orquestração completa para grande banda do hino Nacional Brasileiro, preparado para atender a um pedido do Departamento de Guerra dos Estados Unidos ao Estado Maior do Exército Brasileiro, em 1927 (nesse ano a Banda sagrou-se campeã no concurso das bandas militares). O trabalho exaustivo do maestro pode ser constatado no levantamento que nossa pesquisa fez dos arranjos que escreveu. É dele, sem dúvida, uma nova definição de apresentação da Banda, onde a música erudita posa como matéria-prima ao lado da popular nas audições.  O eclético Pinto Jr. escreveu arranjos de praticamente todos os gêneros: Fantasia da Ópera Os escravos, de Carlos Gomes, A ternura do Mar, valsa de Eduardo Souto, Batuque, de Ernesto Nazaré, Florisbela, marcha de Nassara e Frazão, Linda Lourinha, de João de Barro, e O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, para finalizar com apenas alguns exemplos.

É claro que esse ecletismo nos arranjos simboliza muito do que a Banda tocava e do que o maestro Pinto Jr. continuou fazendo em suas composições: criou dobrados, como José Custódio Pinto e Descentralização – este em homenagem à inauguração da corporação do Humaitá, em 1929 –; o hino em homenagem aos bombeiros, Soldados do Fogo; a marcha 2 de julho de 1921, Série de Cantos Populares, Choro.... e dezenas de composições mais ao gosto erudito.

É relevante destacar que não há registro, ao menos nos arquivos da Banda pesquisados e nos jornais da época, de que Anacleto de Medeiros e Carramona tenham escrito música para o teatro de revista. Em contrapartida, há todos os indícios de que o maestro Pinto Júnior o tenha feito. São freqüentes arranjos seus para as músicas de Eduardo Souto, conhecido musicista da Praça Tiradentes, local de concentração dos teatros. Mas foi para Luiz Peixoto, outro notório escritor das revistas (textos musicados), que o maestro compôs o batuque Boiúiú, apresentado no Teatro Recreio em 1932 (depois, ele seria gravado em disco).

Só para pontuar a importância das revistas no Rio de Janeiro, elas desenvolveram o papel de excelência de apresentação das novidades musicais. Tornaram-se uma coqueluche e durante muito tempo, até a consolidação do rádio, arrastaram milhares de pessoas para as suas diversificadas e hilariantes apresentações. Passado algum tempo, as peças do teatro de revista, com montagens cada vez mais caprichosas e luxuosas, acabaram por intensificar a produção cultural no Rio de Janeiro, atraindo uma massa crescente de espectadores e abordando o cotidiano com tal força que refletiam nos palcos a auto-imagem do carioca: malandro, sensual e dono de uma dicção particular.

Mas voltemos a Pinto Jr. No aspecto da divulgação da Banda, o maestro passou a contar com um aliado de peso: o rádio. Em 1922, o Rio de Janeiro foi palco da primeira transmissão radiofônica brasileira. A experiência pioneira aconteceu na comemoração do centenário de nossa Independência, e o discurso do então presidente da República, Epitácio Pessoa, foi transmitido pelas ondas hertzianas (ondas magnéticas), alcançando os ouvintes de Niterói, Petrópolis e São Paulo. À noite, o público que lotava a gigantesca exposição do centenário ouviu extasiado, por meio de alto-falante, a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, transmitida diretamente do Teatro Municipal.

Como primeiro veículo de comunicação de massa, o rádio tornou-se parte do cotidiano de seus ouvintes, passando do entretenimento à divulgação de valores políticos e culturais. Abriu também um grande mercado de trabalho para compositores, cantores, instrumentistas e arranjadores, gerando uma demanda emergencial de formação de artistas talentosos. Rádios como a Mayrink Veiga e a Nacional eram referência de audiência.

É na rádio Mayrink Veiga, por sinal, que a Corporação dos Bombeiros inaugura o seu programa diário. Sob a direção do Ten. Humbaud, o programa A Hora do Bombeiro abordava desde como evitar incêndios até notícias da corporação. Muitos músicos eram convidados para fazer parte do programa, o que deve ter estimulado a formação de pequenos grupos musicais oriundos da Banda. O quinteto de saxofone, premiado à época, deve ter surgido da necessidade de grupos menores para agilizar o transporte e encaixá-los em espaços de audição mais compactos. Pinto Jr. chegou até a escrever um Choro Estilizado Para Quinteto de Saxofones.

Além dos convites para datas comemorativas, desfiles e entretenimento do povo, a Banda fazia uma grande apresentação pública no Estádio do Vasco da Gama, em São Januário, todo ano. Durante o Estado Novo (1937-45), período político comandado pelo ditador Getúlio Vargas, o governo organizava pelas mãos de Villa-Lobos uma reunião de bandas e corais no Estádio para celebrar a unidade e a consciência cívica do país. Ali não era o espaço da troca de idéias e sim do discurso de Getúlio, que louvava os trabalhadores com sua política populista e autoritária. A Banda do Corpo de Bombeiros era mais uma alegoria para enfeitar a “festa” do Presidente.

Ouso dizer que se Anacleto idealizou a Banda e o maestro Albertino Pimentel deu corpo a esses nobres ideais, foi, sem dúvida alguma, Antonio Pinto Júnior que consolidou a legitimidade da Banda na sociedade. O aumento do efetivo, a compra de inúmeros instrumentos, a diversificação de repertório, em grande parte obra sua, e as quase duas décadas à frente da corporação com apresentações em todos os cantos possibilitaram ao maestro desenvolver o papel que só seria outra vez revivido na regência do maestro Othônio Benvenuto. O que Pinto Jr. fez na primeira metade do século XX o Capitão Benvenuto realizará no período posterior à construção de Brasília. Mas isso é papo para outro capítulo.

 

Capítulo 3

A Banda de Benvenuto

“No tempo imperial surgiu

uma briosa corporação

exemplo edificante de bravura sem igual

que sob o alvirrubro pendão

cumpre a sua sagrada missão

de contra as chamas dantescas lutar

e vidas e riquezas alheias salvar”

(Samba-enredo da Escola de Samba Aprendizes de Lucas, 1958.)

Quando Pinto Júnior deixou a Banda, foi substituído por Ilídio Antônio do Nascimento, que por sua vez deu lugar a Adjalme Rodrigues da Silva, professor da Escola Nacional de Música e oboísta da Sinfônica Brasileira. Foi sob sua batuta que a Banda começou a gravar os famosos LP´s de marcha-rancho, que fizeram muito sucesso na época. Sucesso que continuou com seu sucessor, Luiz Paulo da Silva. Bombardinista, foi também tubista da orquestra do Teatro Municipal e músico da Rádio Nacional. Fez parte ainda da banda de Altamiro Carrilho – grande mestre do choro. Foi sob sua regência que a banda alcançou o prêmio de melhor LP nos anos de 1958, 1959 e 1960, além de conquistar o primeiro lugar de vendagem de discos com o LP Estas também são de Rancho. Depois de Luiz Paulo, foi a vez do bombardinista Dyonisio Rosa Reis ficar à frente da Banda e ter seu nome gravado na memória da cidade do Rio, por ser o orquestrador da versão oficial do hino Cidade Maravilhosa.

Em dezembro de 1962, a Banda passou a ter como maestro Othônio Benvenuto.

Nascido em Jardim, Ceará, em 1925, Benvenuto começou tocando trompa, mas logo se apaixonou pelo oboé, instrumento que tocou até se tornar regente.

Quando a capital do país se transferiu para Brasília, os músicos da Banda tiveram de optar entre continuar no serviço federal (indo para Brasília), ou ficar no Estado da Guanabara. Como lembra o próprio Benvenuto, “em razão disso só ficaram dois músicos no Estado da Guanabara, o sargento músico Ramos e eu, que na época era segundo tenente. Isso no início do ano de 1963”.[6]

Benvenuto teve que organizar uma nova Banda, composta de músicos bastante jovens. O efetivo passou de 60 para 80 músicos, uma nova estrutura foi montada e a Banda passou a ser sinfônica. Com relação aos instrumentos, também houve novidades: a introdução da harpa e o aumento de fagotes, clarinetes e percussão. Um sargento arranjador e outro orquestrador também foram introduzidos.

Os árduos ensaios com os novos músicos valeram a pena: em 1965, a nova banda conquistou o primeiro lugar no concurso de bandas militares. A partir daí, os anos foram memoráveis, com viagens, concertos etc.

Em outubro de 1972, por exemplo, o jornal O Globo anunciava a II Temporada de Primavera da Banda do Corpo de Bombeiros: “Domingo próximo, no Teatro João Caetano, com entrada franca, às 10 horas da manhã, a Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros inicia sua II Temporada da Primavera. O programa deste primeiro concerto será constituído inteiramente de grandes aberturas. Uma delas será a 1812, de Tchaikowski, para cuja execução a Banda mandou confeccionar um bombo gigante, para imitar os canhões previstos pelo autor da partitura. ´Será o maior bombo do mundo´, diz o maestro Othônio Benvenuto, que regerá a série. [...]”

Num domingo, 5 de agosto de 1973, o mesmo jornal anunciava a despedida de Benvenuto: “... o velho mestre despede-se da banda”. Benvenuto deixou o Rio, onde era também professor de composição e regência do Conservatório Brasileiro de Música, para ser professor da Universidade Federal de Santa Maria, Rio de Grande do Sul.

Com Benvenuto, a Banda chegou a ter renome internacional, e foi apontada pelo maestro Hilmar Schatz, diretor musical da TV de Baden-Baden, da Alemanha, como a melhor banda militar do mundo, suplantando a dos carabineiros da França.

 

Conclusão

Quando iniciamos o trabalho sobre a Banda do Corpo de Bombeiros, sabíamos dos desafios que tínhamos ao pesquisar a mais importante banda de música da História do Brasil. Dificuldades tivemos muitas, mas, passados alguns meses do início da pesquisa, a riqueza de documentos e informações foi tranqüilizando os nossos planejamentos e a própria elaboração do texto.

Trabalhamos com quatro fontes de pesquisa, complementares entre si: escrita, iconográfica, discográfica e entrevistas. Entrevistamos mais de 7 músicos que tiveram uma ligação importante com a Banda. Geralmente maestros, muitos deles já com idade avançada, “personagens” do dia-a-dia da corporação; a fonte escrita passou tanto por jornais e revistas de época quanto por textos mais elaborados que refletiam sobre a importância da Banda no país; a iconografia foi encontrada na própria instituição, em jornais de época e em museus, como o da Imagem e do Som; no tocante à discografia, revisitamos toda a produção fonográfica da Banda.

O fim da elaboração do texto, já com as informações da pesquisa musical, reafirmou-nos a validade e a pertinência do projeto.  Em sua existência, a Banda sempre mostrou a capilaridade musical com a cidade do Rio de Janeiro. Seus maestros, muitos deles famosos no país inteiro – como é o caso de Anacleto de Medeiros –, compuseram polca, xótis, valsa, choro, maxixe, samba, opereta, música para o teatro de revista e relacionadas ao repertório clássico. A forma como acolheu e formou músicos na cidade põe a Banda como umas das principais escolas do Rio de Janeiro e do Brasil. E essa história, felizmente, vai ficar para sempre.  

 

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Entrevistados

Entrevistados:

·  Antônio Candido Sobrinho, em 13 de abril 2004. Trompa.

·  Carlos Gomes, em 20 de abril de 2004. Trompa.

·  Gilson da Silva Moura, em 03 de junho de 2004. Piano.

·  José Antônio de Souza, em 30 de novembro de 2004. Clarineta.

·  Maestro José Cândido da Costa, em 17 de abril de 2004.Trombone.

·  Maestro Othônio Benvenuto, em 10 de outubro de 2004. Oboé.

·  Maestro Silvino Lemos, em 20 de fevereiro de 2004. Clarineta.

 

Entrevistadores:

·   André Diniz

·   Evelyn Chaves

 

ASubtenente José Antônio de Souza, em 30 de novembro de 2004. Cs entrevistas

1. Entrevistado: Antônio Cândido Sobrinho, em 13 de abril 2004.

Entrevistadores: Seu Antônio, gostaríamos que o sr. começasse dizendo seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.

Antônio Candido: Antônio Candido Sobrinho, nasci no dia 21 de março de 1934, na cidade de Itaperuna, estado do Rio de Janeiro.

E: Como o sr. começou a se interessar pela música?

AC: Começou na minha casa, a minha família tem muitos músicos. Meu pai e meus tios tinham uma banda de música, e isso garantia uma renda extra para a família. Eu tinha um irmão mais velho que já tocava, e eu desde pequeno ia dormir com a orquestra ensaiando. Com 11 anos eu comecei a aprender música – primeiro teoria musical, com o meu pai, e depois, e só depois, peguei no instrumento. Lá em casa, quando a gente começava a aprender a ler meu pai já começava a ensinar música.

E: E o sr. começou tocando qual instrumento?

AC: Foi curioso, eu comecei no saxofone tenor, mas eu não me adaptei, e então passei para o trompete (aliás eu gosto de falar pistom). Ele comprou um pistom pra mim, todo amarrado com esparadrapo, nós éramos pobres... Mas o instrumento ficou pendurado na parede até eu aprender a teoria. E eu quando ensino alguém também faço isso. Não pode tocar sem saber música, sem saber o “chute” inicial. O instrumento o aluno escolhe depois. Eu ia para escola, e três vezes por semana meu pai “tomava” lição do que ele havia me ensinado. Quando eu comecei a tocar, me juntei à orquestra do meu pai. Às vezes a gente errava, mas eles deixavam, com o tempo a gente aprenderia. De vez em quando aparecia o circo na cidade, e a gente ia tocar. O repertório era curioso, diferente da que a gente tocava na orquestra. Tocávamos também para fazer a propaganda de queima de estoque das casas Pernambucanas, isso sem falar nos bailes de carnaval de Itaperuna e nas cidades vizinhas.

E: E como o sr. veio para Banda do Corpo de Bombeiros?

AC: No dia 16 de março de 1950 eu cheguei ao Rio de Janeiro, com 16 anos. Meu irmão mais velho já morava aqui, tocava na Banda da Polícia Militar (e também tinha uma irmã que já havia casado e morava aqui no Rio). Chegando ao Rio de Janeiro, meu irmão me apresentou à cidade, me ensinou a andar nos bondes etc. E eu fiquei morando com ele. Certo dia fui tocar num baile no Clube dos Democráticos, na Rua do Riachuelo, substituindo um músico da Banda do Corpo de Bombeiros, o Osmani da Silva, na época primeiro sargento, solista do pistom. E o irmão do Osmani foi substituir o Luiz Paulo da Silva, que mais tarde viria a ser o maestro da Banda do Corpo de Bombeiros. Depois do baile, o rapaz que teria que me pagar não me pagou. Então eu fui à secretaria do Clube reclamar que o rapaz da orquestra não havia dado o meu dinheiro. Ele foi até o tal rapaz e finalmente recebi meu dinheiro. Então o rapaz da secretaria me perguntou onde eu tocava, e respondi que acabava de chegar ao Rio, ainda não tinha emprego fixo. E ele me convidou para tocar lá nesse Clube aos domingos. E eu fui. Chegando lá, conheci o Osmani e o Luiz Paulo, que me convidaram para ir conhecer e fazer um teste na Banda do Corpo de Bombeiros. Fui com o meu irmão conhecer a Banda. O maestro da época, o Adjalme, me pediu para tocar algumas músicas. Ele gostou e disse que eu já estava pronto para tocar na Banda. Mas naquela ocasião, não pude entrar de imediato – tinha apenas 16 anos. Tive que esperar completar 17 anos e fazer as provas (oral, escrita e prática). No dia 7 de maio de 1951 eu “sentei praça”, comecei na Banda. Na época o maestro era o Adjalme Rodrigues Silva. Ele era fantástico, e eu acredito que hoje as pessoas cometem uma injustiça ao não lembrarem dele, porque ele inovou, revolucionou o repertório de banda de música. Não sei por que a pessoas não lembram disso. As bandas antigamente tocavam mais trechos de óperas, repertórios simples. O Adjalme achou que aquele repertório estava antiquado para a Banda, e com ele começamos a tocar um outro repertório. Isso, fora as marchas-rancho, que era o repertório popular e que venderam muito. Começamos a tocar marchas-rancho com ele e terminamos com o Luiz Paulo. Viajamos o Brasil todo, inclusive viagens internacionais, devido ao sucesso das marchas-rancho. Ganhamos prêmios que não sei nem contabilizar. Toda semana recebíamos da Record o troféu Arroz Brejeiro, dado aos que mais tocavam. Ganhamos vários concursos, a Banda não parava, era muito solicitada. E nos destacávamos das demais, na medida em que as outras selecionavam um conjunto (os melhores músicos), pra tocar em alguns eventos. Nós não, íamos sempre com toda a Banda. Então, acredito que o Adjalme tem que ser lembrado, por causa da transformação que ele fez no repertório da Banda.

E: E o Luiz Paulo como maestro, como foi?

AC: Foi muito bom também, era muito solicitado fora da Banda. Era um bombardino de primeira linha. Gravou com Altamiro Carrilho, Lamartine Babo, Carmem Miranda, só para citar alguns. Ele não ficou muito tempo à frente da Banda, porque ele passou a ser tubista no Teatro Municipal. Quando eu entrei no Teatro Municipal, ele estava para completar os 70, e ter a aposentadoria compulsória. Mas eu ainda cheguei a tocar com ele uns dois anos no Teatro Municipal. Na época dele gravamos um disco de muito sucesso, só com sambas de Ary Barroso (nesse LP tem um solo de pistom meu). Tenho até hoje todos os discos e de vez em quando sento para ouvir. O último LP que eu gravei foi com o Batista.

E: E depois do Luiz Paulo?

AC: Veio o Dionisio Rosa Reis, que também ficou pouco tempo, dois anos. O Dionisio não era um músico executante extraordinário, mas era um ótimo administrador. É aquele negócio: um músico bom às vezes peca na administração, e vice-versa.

E: E foi na época do Dionísio que a Banda foi para Brasília?

AC: A Banda não chegou a ir para Brasília. A gente ia, ficava um tempo e voltava.

E: Mas havia como optar por Brasília ou Rio?

AC: Sim. O que houve foi uma má interpretação da Lei Santiago Dantas, que na verdade dizia para você optar por Brasília para você garantir os seus direitos federais. Eu já estava há 9 anos no serviço federal, não queria perder esse tempo, e não me interessava passar do serviço federal para o estadual. Então eu fui para Brasília, mas a cidade naquela época era praticamente desabitada, não tinha muito trabalho para a gente. Até que em 1967 o Castelo Branco assinou um convênio, e quem quis regressou para o Rio de Janeiro permanecendo com o vínculo federal. Foi o que eu fiz. Mas nós ficamos uns três ou quatro anos nesse vai e volta de Brasília.

E: E quando o sr. voltou, o Othônio Benvenuto era o maestro da Banda. A Banda já havia sido “refeita”?

AC: Sim, já era uma Banda nova. Já havia sido até campeã do concurso do Maracanãzinho, em 1965. E com o Benvenuto foi ótimo, fui primeira trompa por muitos anos, até eu me aposentar. Gravei com muita gente, Chico Buarque, Tom Jobim, Vinícius de Moares, Miúcha, Elizeth Cardoso, o especial do Roberto Carlos eu fazia todo ano na Globo. Acho que talvez se eu tivesse continuado no pistom, não tivesse essas oportunidades – havia muitos trompetistas excelentes naquela época.

E: E depois do Benvenuto o sr. teve o Batista como mestre?

AC: Foi. Mas o Batista eu já conhecia. E o meu naipe de trompas não tinha nenhum problema. E o meu amigo, o Batista, deu continuidade ao Benvenuto. De forma que eu saí daqui em 1979 e fui para o Teatro Municipal. E hoje acabo de me aposentar pelo Teatro, através da aposentadoria compulsória. Depois do Batista veio o Cândido, meu irmão, mas eu já estava fora. Infelizmente eu não toquei com ele, mais um pouco e ele seria meu mestre. E vale dizer que fui eu quem o trouxe para a Banda do Corpo de Bombeiros.

E: E o maestro Pinto Jr., o sr. chegou a conhecê-lo?

AC: Sim, eu acredito que o Pinto Jr. deu uma nova dinâmica à Banda. Ele se tornou maestro muito novo, e ficou muito tempo à frente da Banda. E ele era ótimo, era arranjador, transcritor, compositor. Ele fez a transcrição do Hino Nacional, e foi promovido a capitão por causa disso. Depois que ele saiu daqui, cheguei a encontrá-lo e conversar com ele algumas vezes. As composições dele eram ótimas, tem uma série de dobrados fantástica, sensacional. E isso está gravado, eu tenho em casa.

E: Se o sr. tivesse que escolher no máximo três maestros, quais o sr. destacaria?

AC: Como maestro, o melhor foi o Adjalme. Depois vem o Benvenuto.

E: E a Banda hoje, o sr. tem contato?

AC: Sim, de vez em quando eu venho aqui. Eu quase não conheço mais ninguém, um dos poucos é o maestro atual, o tenente Efraim, e meus dois sobrinhos que são sargentos aqui. A qualidade, acredito que tenha caído um pouco, principalmente pela falta de incentivo. Parece que as autoridades se esqueceram da importância das bandas no cenário musical brasileiro. Antigamente, por exemplo, no interior do estado do Rio não existia um município que não tivesse uma banda de música. Hoje em dia a situação é lamentável.

E: Ocorreram transformações com relação aos instrumentos? Alguns foram introduzidos, outros abolidos...?

AC: Existia por exemplo o saxhorne, uma espécie de bombardino pequeno, mas que não tocava, porque a tonalidade dele era em mibemol, e o instrumento de sopro em determinados tons fica ruim, porque o tom fica longe do dó do piano. O saxhorne foi extinto porque não tinha função, era chamado de pica-pau, porque não saia do mesmo ritmo. Isso foi com o Benvenuto. Teve também o oficleide, um instrumento de bocal com sapatilhas, que foi abolido há muito tempo. A tuba em mibemol também acabou – agora quase todo o instrumento de banda é em sibemol, porque fica mais fácil de afinar e observar as notas. E outros foram incorporados, como a harpa, o violoncelo, o contrabaixo de cordas – isso tudo com o Benvenuto. O contrabaixo de cordas amacia o som das tubas, não fica um som estridente. E agora, mais recentemente, o piano, xilofone, vibrafone, que não tinha. Essas transformações aconteceram principalmente com o Benvenuto, que foi fundamental pra Banda. Havia dinheiro, vendíamos muitos LP’s (compramos dois instrumentais completos só com o dinheiro dos LP’s), chegamos a vender um milhão de discos naquela época. E o dinheiro era revertido para o Corpo de Bombeiros, que fazia chegar à Banda.

 

2. Entrevistado: Carlos Gomes, em 20 de abril de 2004.

Entrevistadores: Nós gostaríamos que o sr. começasse dizendo o seu nome completo, a data e o local onde o sr. nasceu.

Carlos Gomes: Eu nasci em Salvador, em 31 de dezembro de 1932.

E: Como o sr. se envolveu com a música?

CG: Meu pai era músico, apaixonado por música. Mas não era desejo dele que eu fosse músico profissional. Na maneira dele pensar, eu deveria seguir uma carreira que me desse ganhos economicamente, como direito, medicina ou engenharia. Eu cheguei até a me esforçar, cheguei a cursar dois anos de Farmácia. Mas o destino quis que eu fosse músico. Eu lembro que apareceu uma pessoa querendo vender uma trompa, meu pai comprou e deu para minha irmã. Entretanto, eu tinha um tio que tocava violão – ele viu que minhas irmãs não queriam saber de música e me deu o instrumento para eu tocar. Eu já sabia a parte teórica – aprendia com as aulas particulares que meu pai dava em nossa casa para seus alunos – mas não sabia tocar instrumento algum. E com essa trompa eu comecei a tocar choro, samba. Até que um dia um amigo de meu pai quis me levar para a banda dele. Ele era maestro de uma banda de uma igreja protestante. Eu fui e gostei bastante, tocava como solista. E com 16 anos eu comecei a ganhar dinheiro. Meu pai fazia parte da Orquestra Sinfônica da Bahia e o maestro pediu que eu fosse fazer um estágio, tocando trompa. O resultado foi que eu acabei sendo titular. Nesse período, o Villa-Lobos chegou à Bahia à procura de jovens talentos de instrumento de sopro para ir estudar na França. Fui apresentado ao Villa-Lobos e ele gostou da minha maneira de tocar, levando em consideração que eu tinha um instrumento muito ruim, muito velho. Lembro que ele fez uma aposta comigo, de brincadeira. Disse: “você sabe tocar mesmo esse instrumento, menino?”. Eu disse: “sei”. Meu pai me disse para tocar o solo de Tosca. Eu toquei bem. Era muito jovem, não tinha medo – afinal de contas, não tinha nem idéia, naquela ocasião, da grandiosidade de Villa- Lobos... Ele se virou pra mim e disse que eu iria morar com ele na França. Quando ele chegou ao Rio de Janeiro, providenciou a documentação e enviou para Salvador. Mas nunca recebi. Morava num lugar muito pobre, não havia como as correspondências chegarem, pois não tínhamos um “endereço”. As correspondências eram entregues na base da “casa do fulano”, do “sicrano”. Acredito que as pessoas que receberam a documentação lá em Salvador tinham inveja – eu vim a saber isso depois. Um deles era até compadre do meu pai. Mandaram então uma segunda chamada, mandaram duas professoras me procurarem. Até que apareceu um representante do Ministério da Educação. Então eu recebi uma passagem e vim para o Rio, e a bolsa para a França ficou suspensa até o ano seguinte, pois já havia esgotado o prazo para eu ir. E eu fiquei muito feliz aqui. Vir para o Rio foi como se fosse ter ido pra França. Fui estudar com o professor Benzaquem, fiz o curso na Escola de Música. Mas eu precisava ganhar dinheiro, ter um emprego. E foi fácil escolher um lugar: a Banda do Corpo de Bombeiros. Tinha uma vaga há dois anos “me esperando”. Isso foi em 1954. E a Banda foi o paraíso, pois eu já era aluno da Escola de Música. Me desenvolvi tanto que entrei na Banda fazendo a quarta trompa e em pouco tempo comecei a fazer a primeira. Depois de cinco anos na Banda, decidi fazer o concurso para a Orquestra do Teatro Municipal. Passei e optei pelo Teatro. Embora ganhando menos, preferi trocar. Logo depois a Banda teve que ir para Brasília, com a mudança da capital. E o Othônio Benvenuto teve que refazer a Banda.

E: Quando o sr. entrou, o maestro era o Adjalme?

CG: Sim, e ele adotou uma coisa muito importante para a Banda: um repertório sinfônico. Tocava-se sempre coisas mais popularescas e com ele começou-se a tocar Beethoven, entre outros. A Banda teve o apoio de muitos músicos de orquestras. O próprio Adjalme era um grande oboista da Sinfônica.

E: E as marchas-rancho, começam com quem?

CG: Depois do Adjalme. Porque o Corpo de Bombeiros estava fazendo 100 anos, e tentou-se recuperar parte da história da Banda, a memória do Anacleto começou a ser invocada. A gravação das marchas-rancho foi uma contribuição do maestro Paulo. Ele era músico da Rádio Nacional, tocava bombardino muito bem. E chamou o Pinto Júnior pra fazer os arranjos.

E: Parece que o Pinto Jr. também foi importantíssimo para a Banda, ficou muito tempo...

CG: Muito importante, pegou todo o período da ditadura de Vargas. Eu cheguei a conhecê-lo. Mesmo depois de aposentado, visitava sempre a Banda. Chegou a reger a Banda, como convidado, algumas vezes, nessa época das marchas-rancho. Então o Luis Paulo pegou esse período comercial e a Banda ganhou muito dinheiro. Nós viajamos muito, ganhamos disco de ouro em São Paulo e em outras capitais, nos mais diversos lugares. Chegamos até a conhecer o Pixinguinha, que também estava recebendo um prêmio numa ocasião, assim como nós. Nessa ocasião foram entregues dois prêmios, um para Banda e outro para o Pixinguinha, e tocamos juntos. Foi um período intenso, a Banda ficou muito famosa. Fomos chamados inclusive para tocar na festa do aniversário de 400 anos de São Paulo.

E: E as bandas hoje, perderam sua importância?

 CG: Veja bem, as bandas não perderam sua importância artística, mas a música popular ficou reduzida ao pessoal das guitarras. As marchas-rancho foram vendáveis, mas foi um risco. Tanto que os demais LP’s não venderam bem – o último LP comercial, se não me engano, foi com o Benvenuto. Mas não eram todos os músicos da Banda que gravavam e viajavam, era um conjunto selecionado. Tocamos algumas vezes em procissões... Eu cheguei a tocar até no Candomblé, no terreiro do Joãozinho da Goméia. Quando o santo baixou, nós tocamos um dobrado... Isso eu não esqueço. Mas a Banda dos Bombeiros sempre foi a melhor do Brasil, desde que ela foi fundada. Somente em alguns momentos ela não era a melhor.

E: E a disciplina militar, existia na Banda?

CG: Olha, na época em que eu estava lá, a farda não tinha muito peso. A relação era de amizade. Você tinha liberdade de discutir uma afinação, um arranjo, com o maestro. Poderia ter a hierarquia, mas o negócio funcionava melhor sem o clima de ordem, de hierarquia, de disciplina militar. Eu peguei dois maestros – o Adjalme e o Paulo – e dois comandantes – o Saddock de Sá, que era absolutamente fã da banda, dava “carta branca” pro maestro, e o Souza Aguiar, que era mais rigoroso e fazia questão de que a hierarquia fosse respeitada, mesmo na Banda.

 E: Na sua opinião, quais os maestros mais importantes da banda?

 CG: Na minha opinião, o Anacleto. Tinha uma banda pequena, com poucos músicos. Na época do Benvenuto, chegou a ter 200, porque ele queria várias bandas em uma: uma de elite, outra para tocar em eventos de menor destaque... O Benvenuto teve “carta branca” do governador para refazer a Banda em três meses. E ele fez uma banda espetacular, colocou harpa, piano, bateria completa, e a Banda passou a ser sinfônica. Nessa época, o governo investiu muito dinheiro na Banda.  Depois veio o João Baptista Gonçalves, e, em seguida, o Candido, que era excelente maestro.

E: E depois veio o Silvino...

CG: É, o Silvino é um grande músico.

E: E a Banda hoje, o sr. tem contato, assiste às apresentações?

CG: Eu assisto aos concertos. Na época do Silvino, houve um processo de seleção rigorosíssimo, ele colocou muitos bons músicos lá dentro. E foi quando as mulheres entraram para a Banda – antes não era permitido. E a qualidade se manteve.

E: Mudando de assunto, o sr. se lembra de alguns instrumentos que deixaram de ser utilizados?

CG: Alguns instrumentos deixaram de ser tocados, mas o Benvenuto os trouxe de volta (corne inglês, saxofone contrabaixo, clarineta em contrabaixo). Porque a nossa instrumentação é francesa; os americanos são mais simples. E na minha opinião, o número ideal para uma banda é 90 músicos.  

 

3. Entrevistado: Gilson da Silva Moura, em 03 de junho de 2004.

Entrevistadores: Gilson, nós gostaríamos que você começasse dizendo seu nome completo, o local e a data onde você nasceu.

Gilson da Silva Moura: O meu nome é Gilson da Silva Moura, nasci em 6 de novembro de 1959, no Rio de Janeiro, capital.

E: Como você se interessou pela música?

GSM: Meu pai tocava cavaquinho; meu avô, violão. Minha família toda gostava de música. Um tocava pandeiro, outro cantava... Então eu cresci ouvindo e vendo a minha família tocar e comecei a estudar música. Ganhei um “mini-acordeão” – eu falava que era acordeão de brinquedo, mas era de verdade, só que era pequeno, de seis baixos e apenas uma oitava. Eu ia para o jardim de infância, aprendia aquelas músicas que a gente cantava toda hora: para entrar, para sair, para ir para o recreio... E com mais ou menos seis anos de idade eu comecei a tocar as melodias daquelas músicas. Até que a minha própria professora do jardim me colocou para estudar piano. Ela falou com a minha mãe e eu comecei no Conservatório de Música, no meu bairro, Olaria.

E: Por que o piano?

GSM: Porque do acordeão eu comecei a tocar um piano de brinquedo, e eu me identifiquei com o piano. Mas é claro que eu não estudei piano a minha vida toda, havia momentos em que eu parava, tocava outros instrumentos, fazia outras coisas. Até que eu decidi viver da música e adotei definitivamente o piano.

E: Como e por que você veio pra Banda do Corpo de Bombeiros?

GSM: Eu já conhecia a Banda porque a minha família tinha os discos de marcha-rancho. Meu tio admirava a Banda. Na época que eu entrei, a Banda fazia concertos sinfônicos, e alguns eu tive a oportunidade de assistir, com o Cap. Batista. Então eu entrei para a Faculdade de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos meus colegas já era músico daqui e ele me falou do concurso, que haveria vaga para pianista. Nessa época, o Corpo de Bombeiros tinha um Coral, aberto à comunidade, que precisava de um pianista para os ensaios. As duas vagas de pianista eram para assessorar o Coral, criado pelo Cap. Baptista, maestro da Banda nessa época. O Coral era grande, cerca de 80 vozes, aproximadamente. A prova foi bastante difícil e muito concorrida – para piano eram oito candidatos concorrendo a duas vagas. Quando eu vim pra Banda, estudei oboé, além de ensaiar o Coral. Estudei oboé durante seis meses, das 8 da manhã às 4 da tarde – só parava pra almoçar – e então passei a integrar a banda como segundo oboista. Toquei oboé na Banda durante 5 ou 6 anos, mais ou menos. Depois eu comecei a tocar os instrumentos de percussão de teclado: xilofone, marimba, vibrafone, entre outros. Isso porque os pianistas têm certa facilidade para aprender os instrumentos chamados barrafônicos. Fiquei na percussão até o ano passado, quando o atual regente, o tenente Efraim, me chamou para fazer o trabalho de relações públicas da Banda. Atualmente, além de relações públicas, estou reunindo a documentação da Banda para montar futuramente uma exposição permanente no nosso Centro Histórico, na medida em que a Banda está, desde o ano passado, diretamente subordinada ao Centro Histórico. Mas independentemente disso eu sempre gostei de pesquisa histórica. Esse book que eu te mostrei, com recortes de jornal desde a década de 1970, comecei a fazer na época da gestão do Cap. Cândido, há mais de 10 anos. O intuito, naquela ocasião, era angariar fundos para uma nova viagem à Alemanha – eles ofereceram as despesas que a Banda teria na Alemanha e só teríamos que conseguir as passagens aéreas. O primeiro passo foi a criação de uma comissão, para pedido de patrocínio, e então fizemos esse book de apresentação da banda.

E: Voltando um pouco, gostaria que você falasse sobre o Cap. Baptista como maestro.

GSM: Eu entrei no último ano da gestão do Cap. Baptista. O meu relacionamento com ele era muito bom. Ele valorizava os músicos, principalmente aqueles que se esmeravam, que se dedicavam. Era um bom administrador, se preocupava em manter a Banda em evidência, na mídia. Ele mesmo se encarregava disso: ia para os jornais, conhecia vários jornalistas...  O Cap. Cândido também foi um excelente maestro, músico. Amigo dos músicos, uma pessoa muito boa. Sempre tive boas relações com todos os oficiais que estiveram à frente da Banda. Depois do Cap. Cândido foi o Cap. Silvino. Tive a oportunidade de participar do CD lançado pela Banda, interpretando clássicos. E nesse trabalho eu participei de todas as etapas, desde a licitação até a distribuição. Eu sinto um enorme prazer ao falar desse CD. O Cap. Silvino confiou no meu trabalho, em todos os sentidos: chamar a pessoa para fazer a mixagem, a produção do CD (indiquei o Eduardo Monteiro), a liberação dos direitos autorais, a confecção da capa, o contato com a fábrica, para que ela entregasse os CD´s no dia do lançamento. Fizemos um coquetel de lançamento do CD aqui no Centro Histórico. Na véspera, os CD´s ainda estavam na fábrica, em São Paulo, e eu fiquei a tarde toda ligando para várias empresas de transporte para trazer os CD´s... Até que finalmente na véspera do lançamento, à noite, eles chegaram. Eu trabalhei muito nesse projeto, mas valeu a pena: o produto final é muito elogiado. E, além disso, mostrei meu trabalho como pianista.

E: E o Coral, como foi ensaiá-lo?

GSM: Foi uma experiência maravilhosa. Entrei na Banda e logo fui ensaiar o Coral. Eu tinha somente 21, 22 anos, e a minha única experiência com coral foi participando, cantando. Nunca havia ensaiado. Claro, não havia a proposta de o Coral se tornar profissional, o objetivo era integrar a comunidade. A maioria dos coristas era de pessoas de meia-idade ou mais velhos um pouco, e, nesse sentido, foi um desafio – um garoto novo tendo que dirigir pessoas mais velhas. A gente aprende muito com isso, as várias vertentes da música, o lado – digamos assim – terapêutico. Porque aquelas pessoas que vinham não ganhavam nada, vinham porque realmente gostavam da música, de se integrar em um grupo, gostavam de cantar. E você poder ajudar, fazer com que o grupo cresça... Foi muito valiosa a experiência.

E: Na época do Cap. Cândido a Banda ia muito às escolas?

GSM: Sim, e continua até hoje. As escolas ligam e a Banda atende aos pedidos na medida do possível, de acordo com a nossa agenda. Os concertos em escolas são muito bons, porque existe um trabalho didático, os instrumentos e os compositores são apresentados. A aceitação é muito boa.

E: E com relação ao repertório, mudou alguma coisa entre um maestro e outro?

GSM: O Cap. Cândido acrescentou músicas mais populares ao repertório do Cap. Baptista. Em linhas gerais, podemos dizer que a Banda ampliou seu repertório de alguns anos pra cá. Acredito que o Cap. Benvenuto e o Cap. Baptista mantiveram um repertório mais erudito.

E: E os instrumentos, mudaram?

GSM: Quando eu entrei aqui, havia um naipe de violoncelos, e hoje não existe mais. E também o saxofone contrabaixo não é mais usado. No final da gestão do Cap. Silvino, ele conseguiu a aquisição de um contrabaixo elétrico, uma guitarra e um teclado, utilizados nas músicas populares.

E: Como você avalia a importância das bandas hoje no nosso cenário musical?

GSM: Nós vivemos num país de tradição de banda. As bandas nunca vão perder sua importância. Não é como na Alemanha, onde as crianças começam a aprender violino com 5 anos de idade e toda cidade tem sua orquestra de violinos. No Brasil, prevalecem os instrumentos de sopro e a banda tem um papel fundamental nesse contexto. Os sopros caracterizam a banda (clarinetas, flautas, sax, entre outros). Acho que cabe aqui um pedido, o de se investir mais nas bandas. Um dos caminhos é esse, as bandas sempre tiveram sua força de expressão, de uma cidade, de um povo, e isso não se acaba, não vai acabar.

 

4. Entrevistado: José Antonio de Souza, em 30 de novembro de 2004.

Entrevistadores: Gostaríamos que o senhor começasse dizendo seu nome completo, data e local de nascimento.

José Antônio de Souza: Meu nome é José Antônio de Souza, nasci no Rio de Janeiro, em 30 de setembro de 1960.

E: Como o sr. se interessou pela música?

JAS: Foi através dos amigos. A Igreja que eu freqüentava tinha uma banda e eu comecei a me interessar pelos instrumentos. O sonho das crianças que freqüentavam a Igreja era um dia tocar na banda. E o curioso foi que eu peguei o primeiro instrumento que me caiu nas mãos. Não tive tempo de escolher, de aprender outros para então escolher. Se hoje um bom instrumento já é caro, imagina há trinta anos atrás. Então eu já comecei com o clarinete, tanto que continuei, fiz bacharelado e mestrado com o clarinete. E também ninguém na minha família era músico, eu fui o primeiro a me interessar. A clarineta tocada normalmente é a de 13, ou então 23 chaves, mas a minha era de 23 elásticos, porque era toda remendada. Somente no início dos anos 80 foi que meu pai viu que a música era uma coisa séria pra mim e me deu um bom instrumento de presente.

E: E como o sr. veio para a Banda do Corpo de Bombeiros?

JAS: Eu conhecia amigos que já trabalhavam aqui. O meu professor de teoria musical tocava na Banda. Na época, eu trabalhava em banco, era bancário, e então ele me avisou que haveria um concurso. Eu estudei muito e consegui passar. Eram mais de 200 candidatos inicialmente, e ficamos em seis. O concurso foi em 1981. Entrei aqui em julho desse ano. Já são 23 anos de Banda. Atualmente, estou na parte administrativa.

E: Quando o sr. entrou quem era o maestro? Quais as lembranças que o sr. tem dessa época?

JAS: O maestro era o João Baptista, que tinha um envolvimento grande com o lado erudito, a parte sinfônica da Banda. A Banda tocava muita ópera, trechos de óperas, poemas sinfônicos, aberturas de óperas. Estava sempre na mídia, eram muitos os concertos, sempre lotados, no Teatro Municipal. Havia o Projeto Aquarius, patrocinado pela Globo, que era muito divulgado.

E: E depois veio o maestro Cândido. Como era com ele? O que mudou?

JAS: Não aconteceram grandes mudanças – o maestro Cândido seguiu a mesma linha que já vinha sendo posta em prática pelo João Baptista. A diferença era que ele era recém-formado no curso de regência e o repertório ficou um pouco mais pesado, difícil. Mas era bom o desafio. Ele fazia com que a gente tocasse músicas de Villa-Lobos, que eram difíceis até para grandes Orquestras. Os transcritores tiveram bastante trabalho para adaptar algumas músicas para a Banda.

E: E com o maestro Silvino, como foi?

JAS: O Silvino manteve o repertório erudito, mas foi uma época difícil para a Banda, materialmente falando. O Silvino era extremamente competente e estudioso, mas as coisas eram difíceis, os salários estavam defasados e a infra-estrutura da Banda piorou. As verbas eram escassas, muito embora no final de sua gestão a Banda tenha conseguido um instrumental todo novo. Uma mudança grande foi somente com o tenente Efrahim, o nosso atual maestro, que introduziu instrumentos eletrônicos na Banda, e o repertório ficou mais popular.

E: E o Pinto Jr., o que se fala sobre ele?

JAS: Principalmente sobre regência e transcrições, que ele fazia muitas e como ninguém. Ele foi o que mais fez esse tipo de trabalho, adaptar músicas de orquestras para a Banda tocar. Até hoje tocamos transcrições feitas por ele.

E: E sobre o Anacleto? Ele é lembrado pela Banda hoje?

JAS: Foi um herói, montou uma banda exemplar, com excelente repertório. Tocamos até hoje músicas suas, que são, por incrível que pareça, atuais. Até hoje, nos concertos, tocamos pelo menos uma música do Anacleto. Fizemos até uma vez um concerto com a formação da Banda do Anacleto e tocamos só músicas que ele executava.

E: E a Banda hoje, vocês fazem muitos concertos, viajam?

JAS: As viagens continuam, mas, na maioria das vezes, com um número reduzido de músicos. Porque é caro custear passagem, estadia, alimentação para 70, 80 músicos. Algumas prefeituras nos chamam e depois acabam desistindo. Então começamos a fazer nossos concertos de Câmara, ou seja, levando um número reduzido de músicos.

E: Queria que o sr. finalizasse falando sobre a importância das bandas hoje. A banda que o sr. começou tocando na adolescência, ainda existe?

JAS: Sim, existe até hoje, adequando-se aos tempos atuais. A banda hoje é importante porque desperta nas crianças o gosto pela música. Acho que as crianças, em qualquer idade, deveriam aprender um instrumento. Só no Brasil as crianças não têm aulas assim. A música é sadia para as crianças, ajuda na concentração, em tudo.

 

5. Entrevistado: José Cândido da Costa , em 17 de abril de 2004.

Entrevistadores: Maestro, pedimos para o sr. começar dizendo seu nome completo, a data e o local onde o sr. nasceu. 

José Cândido: O meu nome é José Cândido da Costa, nasci na cidade de Itaperuna, estado do Rio de Janeiro, no dia 3 de outubro de 1943. Vim para o Rio de Janeiro em 1952. 

E: Como começou sua relação com a música? 

JC: Eu venho de uma família “musical”. Meu pai e todos os meus tios eram músicos. Eles e mais alguns amigos tinham um conjunto. Lá em casa somos seis irmãos, todos músicos, assim como vários primos. Com nove anos, comecei a estudar música. Profissionalmente, optei pelo trombone, mas antes estudei saxofone e trompete. Meu pai me deu as primeiras aulas de teoria, depois meu irmão. Só fui estudar formalmente depois de me tornar músico profissional. Um dos meus primeiros empregos era o que hoje em dia chamamos de office-boy (mas eu ia trabalhar e levava o trombone). Eu trabalhava na Volvo do Brasil, e certa vez houve um aniversário de uma funcionária, e eu entrei na sala do diretor tocando. Eu acabei sendo demitido. Então decidi que seria melhor viver da música. Meu irmão já tinha um conjunto... E começamos a ganhar algum dinheiro. Com 17 anos comecei a tocar num conjunto de uma igreja que eu freqüentava, em Irajá. E com 20 anos, em 29 de outubro de 1963, entrei para o Corpo de Bombeiros. O maestro na época era o Othônio Benvenuto.

E: Nessa época a Banda tinha sido transferida para Brasília?

JC: Eu entrei com mais 17 músicos, incluindo um irmão meu, que também tocava trombone. A prova era rigorosa, exigia bastante do candidato, e é assim até hoje. Então aconteceu o seguinte: depois de 6 meses, os 18 passaram a 3º sargento. Nessa época, a capital estava se transferindo para Brasília, os bombeiros que haviam entrado na corporação antes dessa data poderiam optar pelo serviço estadual ou federal. Com isso, em dezembro de 1963, éramos um total de 20 sargentos músicos (os 18 e mais dois que optaram pelo serviço estadual), e mais o maestro, o Benvenuto. Então, não havia banda, e nós começamos a fazer serviço de bombeiro mesmo... Até meados de 1964.

E: E como a Banda foi reconstruída?

JC: Começaram os concursos e em junho de 1964 a Banda completou sua formação. Dessa forma, o Benvenuto pode ser visto como “o segundo Anacleto”. E eu comecei a fazer cursos, fiz um curso técnico, fiz o curso superior na Escola de Música da UFRJ, fiz os concursos internos e fui subindo de patente. Teve época que enfrentei dificuldades, porque fazia faculdade, tinha prova no mesmo dia em que a Banda tinha que viajar, por exemplo... Mas como a Banda tinha um horário flexível (o expediente é somente pela manhã), eu consegui terminar os cursos.

E: E o horário sempre foi assim, ou de manhã ou de tarde?

JC: Sempre, porque você veja bem: para você formar um músico, os ensaios diários não podem ultrapassar duas, três horas... Porque o músico tem que estudar, tem que fazer uma sessão de relaxamento antes de tocar... Então foi isso, fui fazendo provas, subindo de patente, estudando e participando de orquestras, conjuntos de câmara, fora do Corpo de Bombeiros. Até porque ajudava a aumentar a renda familiar, além, é claro, da experiência que você adquire. Em 1980, eu já havia terminado o meu curso de regência, e abriu concurso para oficial. Era uma vaga só e eu fui aprovado. Comecei como maestro adjunto – o maestro da Banda na época era o Cap. Batista.

E: Não foi em 1980 a excursão à Alemanha? O sr. foi também?

JC: Fui. Mas foi muito cansativo. Às vezes nós fazíamos três funções num dia, eu ficava meio chateado com essa história. Isso me tirou um pouco o encanto da viagem. Mas foi uma experiência boa para a Banda.

E: Então o sr. fez a prova para maestro adjunto...

JC: Pois é, e em 1983 foi meu primeiro concerto. O Cap. Batista estava enfermo, inclusive hospitalizado, e eu assumi a Banda nessa ocasião. E, por incrível que pareça, foi tranqüilo. Já tinha muita experiência, tinha tocado em gafieira, coretos, conjuntos, até em cima de caminhão, fazendo propaganda para uma loja de tecidos na época muito conhecida no Rio de Janeiro, a Casas do Barulho. Então toda essa experiência, aliada aos estudos, fez com que eu não tivesse grandes dificuldades como maestro adjunto.

E: Quando o sr. assumiu a Banda como maestro?

JC: Eu assumi em 1983. O maestro Batista acabou não retornando. Lembro de um ótimo concerto, que fizemos com a orquestra sinfônica da UFF. Tem um fato que é bom ser lembrado: assim que eu assumi, em 1983/1984, a sinfônica da UFF era lotada aqui na rádio MEC. E a rádio enfrentou alguns problemas, de forma que a orquestra ficou sem lugar para ensaiar. Então os maestros vieram aqui e pediram para que a orquestra pudesse ensaiar nas nossas dependências. Se eles não encontrassem um lugar, a orquestra estava ameaçada de acabar. Nessa época, não havíamos ainda saído do período da ditadura militar, a disciplina era muito rigorosa. Levei o pedido deles ao comandante, que disse que não poderia permitir a entrada de 70 civis numa dependência militar, a menos que eu me responsabilizasse. Então decidi assumir os riscos. Assim, de manhã ensaiava a Banda e à tarde, a orquestra. Isso levou uns quatro, cinco meses. Na década de 1990 fiquei até uma temporada lá na UFF, com a orquestra.

E: Enquanto maestro da Banda, quais as lembranças que o sr. tem?

JC: O que eu mais gostava de fazer eram os concertos na rede de escolas estaduais.  Pegamos uma época com o Brizola e uma época com o Moreira Franco. Os professores vinham até aqui, fazíamos um programa do que iria ser tocado – era uma grande troca. Tocávamos principalmente nas escolas de normalistas, como a Carmela Dutra e o Instituto de Educação, na Tijuca. Em apresentações de final de ano, reuníamos cerca de 5 mil alunos. Esse projeto vigorou até 1991, não lembro ao certo. Essa é uma das melhores lembranças que eu levo como maestro.

 

6. Entrevistado: Othônio Benvenuto, em 10 de outubro de 2004.

Entrevistadores: Como começou sua relação com a música?

Othônio Benvenuto: Em criança, no Nordeste, ouvindo os instrumentos típicos de minha região. No Rio de Janeiro foi o impacto ao ouvir pela primeira vez uma ópera, cantada pelo grande tenor Beniamino Gigli.

E: Quando começou a tocar?

OB: Na Banda do Corpo de Bombeiros. Inicialmente toquei trompa, mas minha maior paixão foi o oboé, instrumento que toquei antes de me tornar regente.

E: Quando começou na Banda e qual o maestro na época?

OB: Quando entrei na Banda, no início da década de 40, o maestro era o Ilídio Antônio Nascimento. A seguir, assumiu como maestro o músico Adjalme Rodrigues Silva.

E: Por que escolheu a Banda do Corpo de Bombeiros?

OB: Pelo encanto e pelo valor artístico que ela transmitia a quem a ouvisse.

E: Quando assumiu como maestro?

OB: Em dezembro de 1962.

E: Como foi a transferência da Banda para Brasília? Quando foi? Quantos músicos foram e quantos ficaram?

OB: Foi em decorrência de uma lei federal que dava direito a quem era do então Estado da Guanabara de optar por Brasília. Em razão disso só ficaram dois músicos no Estado da Guanabara: o sargento músico Ramos e eu, que na época era 2º tenente músico. Isso foi no início do ano de 1963.

E: Como foi a reconstrução da Banda nessa época?

OB: Foi o fato mais importante para mim, na história da Banda do Corpo de Bombeiros. Partimos praticamente do nada e organizamos uma banda de jovens, muitos dos quais se iniciando no instrumento. E em pouco tempo estava uma banda organizada, de músicos potencialmente talentosos, de tal forma que, com disciplina e trabalho, já em 1965 conquistávamos o primeiro lugar no campeonato de bandas militares.

E: Quais as modificações que o sr. fez no repertório? Tirou instrumentos, colocou outros? Por quê?

OB: As modificações foram diversas – isso tanto no efetivo da Banda, que passou de 60 para 80 músicos, como também na organização da mesma, que oportunizou nova estrutura. Por via de conseqüência, com uma banda maior e naturalmente reestruturada, tivemos oportunidade de aumentar o repertório, sem desrespeitar os princípios seguidos por Anacleto de Medeiros. Passamos a executar um repertório sinfônico mais ampliado, assim como os instrumentos musicais, no que foi possível. Isto sem modificar tanto a sonoridade, que em princípio foi a mesma de Anacleto de Medeiros. O que se fez foi ampliar a Banda com as modificações do novo efetivo e introduzir instrumentos como harpa, mais fagotes e mais clarinetes. A percussão foi ampliada e houve a introdução de um sargento arranjador e um sargento orquestrador. A mesma banda de Anacleto de Medeiros tomou nova feição, sem deixar de ser uma banda cujos princípios foram cuidadosamente respeitados.

E: Qual a importância de Anacleto de Medeiros?

OB: Anacleto é nosso mestre; deixou escola imutável. Todos os maestros do passado o seguiram. Anacleto criou uma banda modelar.

E: E Pinto Júnior?

OB: Depois de Anacleto eu considero Pinto Júnior outro grande mestre da Banda. Foi um dos maiores orquestradores de peças eruditas e românticas, assim como um compositor respeitável e um diretor meticuloso e competente.

 E: Quem é Estevão? O sr. ouviu falar de algum Estevão na Banda?

OB: Me é desconhecido e acredito mesmo que não tenha feito parte da história oficial da Banda do Corpo de Bombeiros.

E: Quais os momentos mais marcantes da Banda?

OB: Numa primeira fase, dois momentos foram marcantes. No primeiro momento, a Banda era desorganizada e houve luta pela organização da mesma. O segundo momento foi uma luta de bravos, quando conquistamos o campeonato de 1965, já com novos músicos. A partir daí, em agosto de 1973, seguiram momentos de sucesso: concertos memoráveis, viagens, instrumental novo etc.

E: A Banda fazia muitas excursões?

OB: Exceto uma excursão ao Paraguai, as viagens eram a estados próximos ao da Guanabara, mas as atividades eram intensas em concertos, temporadas e apresentações diversas.

OB: Quando o sr. saiu da Banda?

OB: Em agosto de 1973, quando assumi como professor titular da Universidade Federal de Santa Maria (RS).

E: Fale um pouco sobre o que sr. sabe a respeito de Luiz Paulo e Dionísio Rosa Reis.

OB: Fui instrumentista com o maestro Luiz Paulo. Sempre o achei pessoa distinta e músico competente. Guardo do maestro Luiz Paulo saudosa memória. Quanto a Dionísio, de quem fui contra-mestre, posso dizer que era um músico muito organizado, sério e trabalhador. Fiquei com ele, infelizmente, pouco tempo, por motivo de aposentadoria mesmo.

E: O sr. tem algum contato com a Banda hoje?

OB: O contato é pouco, pois fiquei todo esse tempo no Sul do país. Mas as vezes que  tenho são motivos de estima e admiração, pelos maestros que me precederam, pelos músicos e pela administração do Corpo de Bombeiros.

E: Fale um pouco sobre a Banda no cenário musical do seu tempo.

OB: Tanto no meu tempo quanto nos tempos atuais a importância da Banda é essencial para a cultura do Rio de Janeiro. Haja vista que se trata de uma organização com mais de cem anos, atuando ininterruptamente na cidade e considerada por todos como uma organização respeitada e estimada.

E: Qual a importância da Banda no cenário musical brasileiro da atualidade?

OB: As bandas, tanto civis como militares, são organizações indispensáveis à cultura. Colocam-se entre a música popular e a música sinfônica e desempenham um papel essencial de intermédio entre o erudito e o popular.

 

7. Entrevistado: Silvino Lemos, em 20 de fevereiro de 2004.

Entrevistadores: Maestro, pedimos que o sr. comece dizendo seu nome completo, local e data de nascimento.

Silvino Lemos: O meu nome é Silvino José Lemos, nasci em 16 de setembro de 1947, numa cidade do interior do estado do Rio, Sapucaia.

E: Como começou sua relação com a música?

SL: Desde pequeno. Eu sempre gostei de música – cantava, assobiava... Meu pai tocava violão “de ouvido”. Meu tio também. Eu comecei a estudar música com quase 19 anos, na Sociedade Musical Carlos Gomes, em Além Paraíba, Minas Gerais.

E: O que o sr. ouvia na época?

SL: Eu gostava de ver a banda de música tocando, os dobrados e aquelas músicas típicas de banda do início do século, como as polcas. Era aquela música que eu queria tocar.

E: Qual o instrumento que o sr. escolheu?

SL: Clarineta. Eu vim para o Rio e estudei na Escola de Música da UFRJ com o professor Geraldo dos Santos – na ocasião, o titular da cadeira.

E: Por que o sr. decidiu entrar para a Banda do Corpo de Bombeiros?

SL: Eu morava em Friburgo e sempre via a Banda do Corpo de Bombeiros tocando na TV Globo, num programa chamado Concertos para a Juventude. Eu me tornei fã daquela banda e quando alguém sugeriu que eu poderia fazer um concurso para uma banda militar, escolhi a do Corpo de Bombeiros. Fiz o concurso em setembro de 1971 e comecei na Banda em 16 de janeiro de 1972.

E: O sr. ficou lá por quanto tempo?

SL: Fiquei na Banda por 31 anos. Como sargento eu fiquei até 1985. Depois fui promovido a oficial e assumi a Banda como maestro em outubro de 1993.

E: Nesse tempo, quais os momentos que o sr. considera mais importantes na Banda?

SL: O primeiro mais importante pra mim foi quando eu fiz um solo numa apresentação em Friburgo. Agora, para a Banda, o que marcou foi uma excursão à Alemanha em 1980.

E: Como foi a excursão?

SL: Ficamos 16 dias. Foi muito bom, saiu nos jornais das cidades alemãs. Eu tenho cópia do jornal.

E: Quais os outros eventos importantes? A Banda fazia muita excursão?

SL: A Banda viajava muito, pelo Brasil mesmo. Minas Gerais, Espírito Santo, já fomos a Recife... O Estado do Rio todo já visitamos. Eram freqüentes as apresentações fora da cidade – a Banda recebia muitos convites. E vale registrar que a Banda viajava sempre completa – éramos por volta de 80, 90 músicos.

E: E os seus momentos mais importantes na Banda?

SL: Foi a partir do momento em que eu assumi a Banda, em 1993. O momento culminante foi o centenário da Banda, em 1996, no Teatro Municipal. Foi uma única apresentação e nessa ocasião o maestro Othônio Benvenuto foi convidado para reger parte do concerto. Eu consegui colocar no teatro um coro com 780 vozes. Foi muito bonito e está tudo documentado. Existe um vídeo e o programa da peça.

E: E os principais maestros na Banda, quais são, na sua opinião?

SL: O Anacleto de Medeiros – na época, uma pessoa muito conhecida aqui no Rio de Janeiro, no meio musical, um grande compositor. Depois dele, uma outra referência é o Albertino Pimentel, o Carramona, que também tem muitas composições e arranjos, vários choros gravados. Depois, o maestro Antônio Pinto Júnior, que ficou 21 anos à frente da Banda, autor do hino da corporação, o Soldados do Fogo. Pinto Júnior também é o autor do arranjo oficial do Hino Nacional Brasileiro. Ele foi promovido a capitão por merecimento – na ocasião, a patente máxima na Banda era segundo tenente. Depois dele a patente máxima voltou a ser tenente novamente. Também posso citar o Dionísio Rosa Reis, autor do arranjo oficial do hino Cidade Maravilhosa, que gravou LP’s de marchas-rancho e bateu recordes de venda. Mais recentemente, o maestro Othônio Benvenuto. Quando assumiu a Banda, só havia ele e mais dois músicos. A Banda foi, junto com a capital da República, para Brasília. Ele teve que reconstruí-la.

E: Ela foi reconstruída nos mesmos moldes?

SL: Não, ele melhorou a estrutura.

E: Como o sr. vê a Banda hoje?

SL: A Banda hoje tem um número de músicos maior, e músicos muito bons. O processo seletivo é rigoroso e a qualidade se mantém. Está muito bem entregue hoje ao Tenente Efraim, e há um ano está subordinada ao Centro Histórico e Cultural, criado recentemente. Ah, existe uma história curiosa, de quando a Banda foi tocar numa cidade do interior. Ao lado do local da apresentação, havia um curral, e alguém de brincadeira abriu a porteira e os bois vieram na direção da Banda, que estava se apresentando. Na hora foi um corre-corre, mas depois foi engraçado lembrar do episódio.

 

Depoimentos

Depoentes:

·   Marcos Campos, em 26 de maio de 2004. Fagote.

·   Maestro Silvino Lemos, em 20 de fevereiro de 2004. Clarineta.

Entrevistadores:

·   André Diniz

·   Evelyn Chaves

Os depoimentos

1. Depoente: Marcos Campos, em 26 de maio de 2004.

Marcos Campos nasceu em Cordeiro (cidade próxima de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro), em 30 de agosto de 1961. Seu pai tocava violão (não profissionalmente) e incentivou o interesse do filho pela música. Aos 10 anos, Marcos começou a aprender saxofone numa banda de música da cidade.

Aos cerca de 20 anos, prestou concurso para ingressar na Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. Já conhecia e admirava a Banda, que havia se apresentado na cidade algumas vezes, e já a havia visto na televisão, no programa Concertos para a Juventude.

Quando começou na Banda, o maestro era João Baptista Gonçalves. Segundo Marcos, o maestro era bem relacionado politicamente, além de bom administrador. Em sua gestão, a Banda participou do Projeto Aquarius. Havia ênfase no repertório erudito.

José Cândido, sucessor de Baptista, era ótimo maestro. Reduziu o número de instrumentos de cordas. Era ousado no repertório e fez novos arranjos de músicas eruditas para a Banda. O número de componentes girava em torno de 60 nesta época. Com o maestro José Cândido, Marcos deixou o sax e começou a tocar fagote, instrumento pelo qual sempre teve curiosidade.

Com o Cap. Silvino, ocorreram algumas mudanças: instrumental novo, mulheres começaram a ser admitidas e o número de componentes aumentou (em função de aposentadorias, reformas, exonerações etc., a Banda chegara a ter apenas 55 componentes). Além disso, os critérios para promoção mudaram, tornando-se mais flexíveis.

Atualmente, um fato chama a atenção: cerca de 95% dos músicos declaram-se evangélicos. O número de músicos gira em torno de 100 e a maior parte deles tem nível universitário. A média de idade gira entre 25 e 35 anos.

O tenente e atual maestro, Efraim Berto, tem feito algumas mudanças: o repertório é mais atual e popular e há mais ênfase em instrumentos como oboé, clarineta e saxofone.

Hoje em dia Marcos é, como os demais subtenentes, mestre de música. Em poucas palavras, ele é o responsável por conduzir e reger a Banda (ou um grupo de músicos, que nesse caso compõem uma tocata) em eventos. Os demais subtenentes são: Aurimar, Neto, Gomes, Elias, Moura, Eliezer e De Souza.

2. Depoente: Silvino Lemos, em 20 de fevereiro de 2004.

Maestro Silvino Lemos inicia a entrevista tecendo elogios ao cel. Rubens Jorge, que teria dado mais autonomia à Banda. Na gestão do cel. Rubens, a Banda adquiriu instrumental novo e gravou dois CD’s, o Hinos de Países e o Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro Interpreta Clássicos. Com o cel. Paulo Santos a Banda gravou o CD Hinos do Nosso Brasil.

Quando era maestro da Banda, Silvino realizou vários concertos (o principal, de acordo ele próprio, foi o do centenário da Banda, em 1996), e tocava principalmente repertório erudito. Ele afirma ter trabalhado para que os músicos pudessem alcançar a patente de major (e conseguiu, sendo eles brevemente promovidos). Também em sua época como maestro, depois de algo em torno de 10 anos sem concurso, entraram cerca de 52 músicos na Banda. Além disso, o maestro introduziu o baixo elétrico, a guitarra e o teclado; a Banda adquiriu computadores; as mulheres puderam prestar concurso pela primeira vez (atualmente são cerca de 6 mulheres).

Silvino acha que alguns maestros devem ser lembrados: o Paulo Silva (que gravou o LP com as marchas-rancho), o João Baptista (que criou o coral do CBMERJ, que teve duração curta, de cerca de dois anos apenas) e o Dionísio Rosa Reis (porque é o autor do arranjo oficial do hino da cidade do Rio de Janeiro, o Cidade Maravilhosa).

Anacleto de Medeiros nunca foi esquecido, segundo o maestro Silvino. Silvino e Baptista, quando à frente da Banda, tocavam músicas do Anacleto com arranjos originais. Já o maestro Cândido gostava de fazer arranjos próprios para as músicas do Anacleto.



[1] SALLES, Vicente. Sociedades de Euterpe. Brasília: edição do autor, 1985. p. 19.

[2] DAMIÃO, José Pedro. Tradicionais bandas de música. Pernambuco: edição do autor, 1970. p. 53.

[3] MEIRA, Antônio Gonçalves & SCHIRMER, Pedro. Música militar e bandas militares: origem e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Ombro a ombro, 2003. p. 34.

[4] TACUCHIAN, Ricardo. Bandas de música: anacrônicas ou atuais? In: Revista da Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia. Salvador: jan/mar 1982.

[5] GONÇALVES, Alexandre. O Choro. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1978.  p. 146

[6] Depoimento de Othônio Benvenuto.